Crônicas do Pedro
  CRÔNICAS DO PEDRO :  O GPS Materno e a Arte de Ser Humana
Dizem que "mãe é tudo igual, só muda o endereço". É uma frase engraçada, quase um meme antes mesmo da internet existir. E faz sentido. Parece que, no momento em que uma mulher se torna mãe, ela recebe um chip de memória com um pacote de frases prontas. "Na volta a gente compra", "Se eu for aí e achar, eu esfrego na tua cara" ou a clássica "Você não é todo mundo".
É fascinante como elas compartilham esse superpoder de encontrar chaves perdidas no meio do caos e de prever frentes frias que nenhum meteorologista do jornal consegue detectar. Mas, se a gente olhar só para as frases prontas e para os mimos, a gente acaba ignorando a mulher que existe por trás do avental invisível.
A verdade é que, embora o roteiro seja parecido, o palco de cada uma é bem diferente. Existe uma dualidade que a gente custa a encarar: a maternidade é um amor que transborda, mas é também uma solidão que aperta. Muitas vezes, esse "superpoder" de achar o chinelo perdido é só o resultado de uma carga mental que não dá trégua. Elas cuidam, elas sofrem e, muitas vezes, fazem tudo isso sozinhas no silêncio da madrugada.
E precisamos falar sobre o direito de reclamar. Criou-se um mito de que a mãe tem que ser uma santa inabalável. Mas mãe é gente. E gente cansa. Reclamar da louça acumulada, do sono interrompido ou da falta de tempo para tomar um café quente não faz dela menos mãe. Reclamar não anula o amor; apenas humaniza o cansaço. A maternidade não precisa ser perfeita para ser sagrada.
Então, sim, elas vão continuar dizendo que "em casa a gente conversa" e que "você não é todo mundo". E a gente vai rir disso. Mas que a gente também saiba olhar para o endereço de cada uma e perceber que, por trás daquela frase cômica, existe uma mulher que também precisa que alguém ache as chaves para ela, que alguém lhe ofereça um casaco e que, principalmente, alguém a deixe ser apenas humana, sem o peso de ter que ser incrível o tempo todo.
Pedro Gomes